terça-feira, 4 de novembro de 2008

"Amar-te"



Amar-te- não por gozo da vaidade,

Não movido de orgulho ou de ambição.

Não à procura da felicidade,

Não por divertimento à solidão.

Amar-te - não por tua mocidade

-Risos, cores e luzes de verão-

E menos por fugir à ociosidade,

Como exercício para o coração.

Amar-te por amar-te: sem agora,

Sem ontem, sem futuro, sem mesquinha

Esperança de amor sem causa ou rumo

Trazer-te incorporada vida fora,

Carne de minha carne, filha minha,

Viver do fogo em que ardo e me consumo.

Aurélio Buarque de Holanda

"Tenho Razão"



Tenho razão de sentir saudade,
Tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste e sem te
despedires foste embora.
Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral,
A comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação até o limite
das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
Enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação,
O ato em si, O ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
De nossa convivência em falas camaradas,
Simples apertar de mãos, Nem isso, Vozmodulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades. Sim, Acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste.
Carlos Drummond de Andrade

"Livros e Flores"



Teus olhos são meus livros.

Que livro há aí melhor,

Em que melhor se leia

A página do amor?

Flores me são teus lábios.

Onde há mais bela flor,

Em que melhor se beba

O bálsamo do amor?

Machado de Assis

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

"Dois Quadros"



Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.

Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam Ferreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.

O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.

Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.

Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.

De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.

Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.

E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.

Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.

Patativa do Assaré

"Circulo Vicioso"





Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:


"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol com azedume:


"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:


Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...

Machado de Assis

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

"Meu destino"



Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

Cora Coralina

sábado, 25 de outubro de 2008

"Ventura Terrena"


Goza de mais ventura terrena a rosa cultivada
do que a que,
fenecendo no galho selvagem,
cresce, vive e morre em solitária beatitude.
Wiliiam Shakespea
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